A PRAIA


Passo o inverno todo a sonhar com a praia

o cheiro a maresia, a espuma das ondas, a brisa marítima que me acaricia o rosto, o calor que me envolve o corpo, o arrepio do primeiro contacto com a água fria, o sal que torna áspera e esbranquiçada a minha pele, a areia quente onde enterro os pés

e imagino-me deitada na toalha a ler, a dormitar, a esfregar loções de bronzear com a indolência de um gato que se lambe ao sol, a fazer absolutamente nada, se não contemplar o horizonte, seguir o lento andamento de um barco que passa, ouvir o som do mar ou o piar das gaivotas

a comer uma maçã e a trincar grãos de areia, a beber água morna, a sentir o sabor a sal nos meus lábios secos.

Infelizmente, mais tarde ou mais cedo sou obrigada a regressar ao mais absoluto cinzento

às nuvens, à chuva, aos prédios, às paredes, ao mobiliário e à alcatifa do escritório, ao fato do chefe e à farda das colegas

tudo é cinzento à minha volta.

Vejo diariamente o boletim meteorológico na televisão e perscruto o céu como um caçador que espia a caça e, ao primeiro sábado com um cheirinho a Primavera lá vou eu, saco a tiracolo, rumo a uma praia abrigada onde, com sorte, talvez consiga tirar a camisola e as calças caso a densa e ameaçadora nuvem decida abrir uma clareira e deixe o sol despontar

e então estendo-me na toalha e suspiro, deliciada, a pensar que o esforço de me meter no carro e o dinheiro que gastei em gasolina foi amplamente recompensado com uma piscadela de olho do paraíso.

Nesses primeiros fins de semana de tímida primavera a praia é, por assim dizer, um vasto deserto humano e as poucas pessoas que se antecipam à época instalam-se a uma distância respeitosa umas das outras

surfistas agarrados às pranchas, pescadores, solitários, sonhadores, poetas, desportistas, casais apaixonados

gente que como eu precisa de conviver com o mar, de estar na praia, de embalar a vida na cadência do marulho.

Às vezes uma visão desagradável apossa-se de mim contra minha vontade e a primavera dá lugar ao verão e a praia sofre uma terrível metamorfose e por mais cedo que saia de casa há sempre um ror de gente que chega primeiro do que eu e se espalha ruidosamente por todo o lado, aluga todos os toldos e todas as barracas, esgota os refrigerantes, os gelados, as bolas de Berlim e as batatas fritas, o papel higiénico e as toalhas de papel nas casas de banho públicas, ocupa todas as mesas nas esplanadas, chafurda à beira-mar, grita e se insulta, ri, gesticula, joga à bola, corre por cima das toalhas, persegue pulgões, moscas, abelhas e mosquitos de sandália em riste

todos apertadinhos uns contra os outros, como se a praia fosse o prolongamento do Metro.

E então, encolhida entre uma gorda suada que passa o dia a comer pastelinhos de bacalhau que retira de um caixa de plástico e duas criancinhas que atiram areia uma à outra, fecho os olhos com força e tento regressar às boas lembranças. Por momentos deixo de sentir nas narinas o pivete a óleo rançoso dos pastéis de bacalhau da gorda e o cheiro a suor e a Sugus das crianças e sou envolvida por uma onda perfumada a maresia

e à minha volta os ruídos provocados pela gritaria e pelos rádios mal sintonizados dão lugar ao melodioso som da ondulação

num vaivém cadenciado que me embala

e fantasio que sentado na toalha da gorda vem sentar-se um homem de porte atlético que a sorrir me oferece uma estrela-do-mar – Para ti – diz ele num tom de voz profundo e sensual.

E eu finjo-me surpreendida – Para mim?

E ele – Não pude deixar de reparar em ti – diz a tirar os óculos escuros e a olhar para mim.

E eu sacudo uns grãos de areia da toalha a disfarçar a perturbação e procuro desesperadamente qualquer coisa inteligente para dizer quando uma voz vinda de outro mundo me faz estremecer – Então, menina Aurea, está a fazer a sesta – pergunta o meu chefe a olhar-me com um ar trocista.

E eu regresso à realidade, ao cinzento do escritório, do fato do chefe, da mobília e da alcatifa, do tempo invernoso e enevoado e sorrio apologética – Estava distraída a pensar que

E ele, enorme à minha frente – o Estado não lhe paga para estar distraída.

- A Aurea está sempre nas nuvens – bufa o Vítor – A Susana até lhe pôs a alcunha de Aérea

não é a Aurea, é a Aérea.

E riem-se todos na sala. E eu rio-me contrafeita, sento-me direita na cadeira, carrego no rato do computador e no écran aparece uma das centenas de fotos que tenho da praia

mar prateado e estranhamente calmo, pegadas desordenadas na areia, lusco-fusco, gente a caminho dos degraus com as sandálias numa mão e a toalha na outra

e sem dar por isso deslizo outra vez na cadeira e recomeço o devaneio no ponto em que o chefe o interrompeu – Oh, não pudeste deixar de reparar em mim porque não está mais ninguém na praia – respondo ao homem de porte atlético que me ofereceu a estrela-do-mar.

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