A dieta da tia Ada


Gostava de poder dizer que sou uma daquelas azaradas que engorda só de olhar para a montra de uma pastelaria mas, em abono da verdade, devo confessar que raramente me fico pelo olhar e, com a consciência culpada de quem está prestes a cometer um delito, dou por mim a entrar furtivamente, a dirigir-me ao balcão, a apontar para o queque mais minúsculo, para o bolo de arroz mais enfezado, para a madalena mais raquítica.

- É aquele ali, se faz favor, o mais pequenino - peço ao empregado, ao mesmo tempo que luto contra a tentação de me contradizer. - Não, desculpe, esqueça o queque, o bolo de arroz, a madalena, e dê-me antes uma duchesse, essa aí, que tem mais chantilly.

Mas contenho-me e lá como o queque com a voracidade dos gulosos descontentes, a consumir-me em ressentida nostalgia do tempo em que era uma criança rechonchuda, sorridente, de face rosada e mãozinha sapuda, tipo anjinho barroco, que se regalava com bolas de Berlim, com ou sem creme, tabletes, bonbons e sombrinhas de chocolate, tal como se regalava com bife, hambúrguer, puré, carne assada, peixe frito, sopa de cenoura, arroz, batatas fritas, pão com manteiga, ovos (em gemada, mas também mexidos, estrelados, escalfados, em omeletas ou cozidos), mioleira, pernas de frango, tutano, empadão (de carne e de peixe), almôndegas, ervilhas guisadas com chouriço, feijoada, caldeirada, esparguete à bolonhesa, pão de ló, pastel de nata, pudim flan, gelado, bananas, morangos, nêsperas e figos, bolachas, biscoitos, devorava de tudo com a sofreguidão de uma última ceia.

- Esta menina adora comer - sintetizava a minha mãe com condescendência. - Dá gosto olhar para ela.

Foi uma infância feliz, sem repressões ou restrições de maior e nem o facto de na escola me terem posto a alcunha de Miss Piggy me perturbou, pelo contrário porque, ao fim e ao cabo, era ou não era ela quem mandava nos Muppets e namorava com o Kermit?

Contudo, a harmonia entre o meu rechonchudo ser e o resto do universo entrou em turbulento choque no momento em que os meus seios despontaram e os rapazes começaram a reparar em mim e eu neles.

De repente, tornei-me taciturna e deixei de gostar de muita coisa, da minha alcunha, de jogar Monopólio com o meu pai, de me sentar no colo do meu avô, de ir ao parque com a Natália (a empregada da tia Ada) e de ouvir a voz estridente da minha mãe a dizer - Esta menina adora comer. Infelizmente sai à tia.

E saía. Em volume e em gula.

Farta de a ouvir e de olho posto num dos amigos do meu irmão, decidi submeter-me a um longo calvário de dietas, na vã esperança de conseguir adelgaçar o meu corpo e assim agradar à minha mãe e ao amigo do meu irmão.

Tentei a dieta vegetariana (sem extremos porque ovos, leite e queijo, na minha perspectiva, não são carne nem peixe), a macrobiótica (não subscrevo fundamentalismos e, por isso, o meu consumo de arroz integral nunca passou de uma refeição por semana), a frugivorista (fruta em gelado também é fruta e o abacate é um vegetal), a paleolítica (a minha favorita porque não resisto a carpaccio e sashimi), a da sopa (uma ou outra batata ou uma colher de natas não hão-de fazer grande diferença), a da Lua, a detox, a cetogênica, a da Clínica Mayo, a de South Beach, a low carb…

E tentei batidos diuréticos, comida Light, chás dietéticos, acupunctura, cápsulas, comprimidos, gel, cremes, roupa anti-celulite e provavelmente continuaria a experimentar outras dietas e produtos ditos milagrosos não fosse, por um feliz acaso, ter-me vindo parar às mãos o Le Nouvel Observateur, Hors-Série,nº55, com um artigo de Claude Fischler intitulado Le Gras.

“(...) o discurso médico precisa e acentua a sua oposição global à gordura, que vê doravante como uma espécie de tecido parasita em vez de uma salutar reserva de energia.”

Também por essa altura, na revista Visão nº621, topei com uma entrevista de Susie Orbach, na qual afirmava que “O metabolismo altera-se, sobretudo se elas [as dietas] forem feitas repetidamente, e já não volta ao que era. Fazer dieta a toda a hora é caminho certo para aumentar de peso.”

De repente, fez-se luz no meu espírito e decidi optar por um compromisso misto, que é o que faz a minha tia Ada desde que a nutricionista lhe pôs nas mãos um cardápio com uma lista de pecados alimentares de um lado e virtudes alimentares do outro.

Eu explico. Primeiro marcha o pecado, sobremesa incluída, e imediatamente a seguir (para evitar o risco de indigestão) chama a Natalia - Agora traz-me a dietazinha, se fazes favor - pede, no tom dramático de quem se entrega ao sacrifício com o espírito do dever.