A Síndrome de Stendhal


- Imagina que me deu aquilo a que os psiquiatras florentinos baptizaram de Síndrome de Stendhal - disse ele. - Se soubesses como me senti, eu que até me considero assim um tipo cool, fiquei completamente atordoado com todas aquelas obras-primas, aquelas sombras de perfeição divina, no dizer de Miguel Ângelo, maldisposto, com vertigens e à beira de um ataque de pânico, por pouco ia vomitando para cima do Piero della Francesca, tive que atravessar o resto das salas a correr e, não fosse a brisa gélida lá fora, acho que tinha mesmo desmaiado

que horror, vê-me só a vergonha.

- Mas o Stendhal era escritor - contrapus, admirada. - Não estou a ver a relação.

- Só acalmei depois de me ter sentado numa esplanada e bebido um cappuccino - continuou ele. - Diz-se que a arte ocupa o espaço entre a ilusão e a realidade e o que provavelmente aconteceu foi que, perante o peso histórico e estético de tantas obras-primas, ilusão e realidade baralharam-se-me na cabeça

quer dizer, de repente fiquei desnorteado, siderado, oscilante entre quem sou e quem poderia ter sido, sei lá, o Leonardo, ou um dos Medici, por exemplo, ou até, porque não, uma das Madonas do Rafael, ou a Virgem do Pescoço Longo ou a Nossa Senhora do Povo

e eu ali numa confusão danada, aquilo a dar-me a volta ao estômago.

- Pois - murmurei reticente. - Mas o que é que isso tem a ver com o Stendhal?

- E então ocorreu-me que a Louise Bourgeois uma vez disse que a arte surge da vida - prosseguiu ele. - Não me lembro das palavras exactas, mas o sentido era o de que a arte gira em torno da sedução, da nossa capacidade de seduzir

pessoas ou animais, para o caso tanto faz

e senti-me como que apanhado na teia da sedução

aqueles nomes todos, estás a ver, Van der Weyden, Veronese, Mantegna, Ucello, Rafael, Andrea del Sarto, Botticelli, Pontormo

é pá, os tipos seduziram-me de tal modo que perdi o pé e entrei em pânico, foi uma sensação estranhíssima

oh, olha para os meus braços, ainda hoje fico todo arrepiado só de pensar nisso.

- Tem lá calma, Jorge - pedi, a afagar-lhe no braço. - Estás aqui comigo e estamos numa boa por isso não penses mais nisso

mas antes explica-me o que é que o Stendhal tem a ver com essa cena toda.

- Talvez fosse o olhar de toda aquela gente há tanto tempo morta - murmurou ele, pensativo. - Aqueles olhos todos postos em mim, quadro após quadro, após quadro

e eu ali a sentir-me observado, analisado, dissecado, criticado, como se fossem eles a julgar-me e não eu a julgá-los a eles

era deveras perturbador, calcula que por segundos cheguei a duvidar que estivesse vivo pois senti-me assim como parte integrante daquela amálgama de olhares imortalizados pelos artistas que os pintaram.

- Deves ter tido uma trip do caraças - trocei, a olhar para ele de lado. - Tens a certeza que isso não foi passa a mais?

- Estava totalmente lúcido - garantiu ele, ofendido. - Juro.

- E o raio do Stendhal - insisti. - Qual foi o papel dele nisso tudo?

- Também é verdade que os quadros só ganham vida através de quem olha para eles - voltou ele à carga. - Foi o Picasso que disse isto, não foi?

- Sei lá - exclamei, a bocejar. - O que eu sei é que estou a ficar cheia sono.

Ele fitou-me com um ar escandalizado. - Francamente, Luísa - protestou. - Eu a tentar partilhar contigo esta experiência fortíssima e tu só pensas em dormir.

- Desculpa - balbuciei. - Levantei-me muito cedo.

- De modo que estava ali sentado, a olhar para o pequeno jardim do outro lado da rua e a saborear o cappuccino, quando me ocorreu que o problema tinha sido esse - disse ele, a dar-me uma cotovelada. - O problema fora exactamente esse, percebes?

- Nem por isso - retorqui, a abanar a cabeça. - Qual problema?

- De repente apercebi-me que a minha Síndrome de Stendhal estava relacionada com o olhar - explicou, impaciente. - Percebi isso porque a vontade de contemplar a paisagem tornou-se imperiosa, afigurou-se-me como a única cura possível

e lembrei-me do Jaspers Johns dizer que às vezes via e depois pintava e outras pintava e depois via e compreendi a diferença entre sentirmos o que vemos e vermos o que sentimos

faz sentido, não faz?

- Eu cá já estou por tudo - desabafei, a abraçá-lo. - E se nos fôssemos deitar?

- Foi assim como uma catarse - concluiu, a beijar-me a nuca. - Chamei o empregado, paguei a conta e, na falta de uma montanha por perto, fui até à beira do Arno.

- Fizeste bem - sussurei-lhe ao ouvido.

- Voltei as costas àquela cidade tão incrivelmente carregada de passado e sentei-me no muro, a contemplar as águas lamacentas e a vegetação amarelada e raquítica pelo inverno e pela poluição - explicou. - Não sei como descrever o sentimento de liberdade que se apossou de mim.

- Ficaste curado - sugeri com um sorriso irónico. - E o Stendhal?

- Ah, sim, o Stendhal - exclamou, a bater ao de leve com os dedos na testa. - Um psiquiatra lembrou-se de associar o mal-estar que algumas pessoas sentem, ao visitar Florença, à reacção que Stendhal descreveu, no seu Diário, depois de ver os túmulos e os monumentos funerários de tantos ilustres que repousam na igreja de S. Croce

sei lá, o Galileu, o Maquiavel, o Dante, o Rafael

ao que parece, a emoção que sentiu foi tão forte, tão forte, que teve de fugir para a rua para se acalmar.

- Onde é que foste desencantar isso - perguntei, desconfiada. - Cheira-me a peta, Jorge, às vezes tens uma certa dificuldade em separar a realidade da ficção.

- Se não acreditas em mim vai à net e googla - resmungou, amuado. - Mas agora anda para a cama antes que perca a vontade de te seduzir.