A distância que cresce entre nós


Ela aproximou-se, corpo esguio e desengonçado de adolescente, abriu a porta do carro, atirou com a mochila para o banco de trás e, sem dizer uma palavra, sentou-se, colocou o cinto de segurança e cruzou os braços.

Senti uma saudade tão grande ou maior do que a distância que cresce entre nós. - Olá – saudei com uma alegria forçada. – Também estou contente por te ver.

Ela encostou a cabeça ao vidro da janela e permaneceu calada.

Sem dar por isso, tirei o pé da embraiagem e o carro protestou com um solavanco. – Desculpa – balbuciei – pensei que estava em ponto morto.

Ela permaneceu queda e muda.

Irritada, liguei o motor e arranquei. – Não me queres contar porque é que estás maldisposta?

- Não estou maldisposta.

- Se não estás maldisposta, então estás o quê?

- Chateada.

- E porque é que estás chateada?

- Não tens nada a ver com isso – respondeu com maus modos.

- Não fales assim comigo, Inês.

Ela franziu a testa e comprimiu os lábios com força.

No sinal vermelho ajeitei o espelho retrovisor, ajustei o assento, liguei o ar condicionado, dei a volta às estações de rádio, limpei o pó do tablier com a ponta dos dedos, baixei e subi a pala, engatei e desengatei a primeira, puxei e libertei o travão de mão. – Não achas que entre amigas não deveria haver segredos?

- Amigas – repetiu ela desdenhosa. – Desde quando?

- Desde que descobri que crescias dentro de mim – respondi, a fazer sinal para entrar na autoestrada. – Sou e serei sempre tua amiga.

- Não, não és – negou, agressiva. – És minha mãe.

- E porque é que mães e filhas não podem ser amigas?

- Porque não podem – declarou, peremptória.

Perturbada, apontei para as filas compactas de trânsito - Isto hoje está infernal.

Ela não disse nada.

When you call my name it’s like a little prayer, I’m down on my knees, I want to take you there – trauteei, a subir o volume do rádio. – Há anos que não ouvia isto.

- Menos, mãe – gritou ela, a baixar o som.

- Mas é uma das tuas preferidas – repliquei, admirada.

- Era – corrigiu, a abrir a janela.

Olhei para o relógio, engatei a primeira, libertei o travão de mão e fiz ponto de embraiagem – Nem dois metros – protestei, a esfregar a palma das mãos transpiradas uma na outra. – Fecha a janela, Inês, o ar condicionado está ligado. És tão ecológica para umas coisas e tão pouco para outras.

- Pouco ecológico é teres o ar condicionado ligado - comentou, sarcástica.

- Fe-cha a ja-ne-la – soletrei. – Já.

- Des-li-ga o ar con-di-ci-o-na-do – soletrou ela. – Já.

- Cuidado, Inês – avisei. - Estás a esticar a corda.

Ela suspirou e carregou no botão com força.

- Não é para partir – gracejei, a tentar desanuviar o ambiente.

Ela não reagiu.

Olhei-a de soslaio e estendi o braço para lhe fazer uma festa, mas ela esquivou-se com um movimento brusco e bateu com a cabeça no vidro.

Tive ganas de dizer que era bem feito, mas contive-me. - Magoaste-te, querida?

- A culpa foi tua – vociferou, a esfregar a testa. – Se não me tivesses obrigado a fechar a janela isto não tinha acontecido.

- Só estava a tentar fazer-te uma festa – desculpei-me.

- Estás farta de saber que odeio que me toques.

- Às vezes esqueço-me - murmurei.

Ela tirou o telemóvel do bolso e desatou a dedilhar as teclas como se não houvesse amanhã.

- Estás a enviar mensagens a quem – perguntei, a esforçar-me por conferir à minha voz o tom casual de quem pergunta só por perguntar.

- Não tens nada a ver com isso.

De mãos crispadas no volante, semicerrei os olhos e vi a imagem da minha filha deslizar por entre os meus dedos como se de clara de ovo se tratasse.

Pequena, corria desenfreada a fingir que fugia de mim mas, se olhava para trás e não me via, caía numa aflição medonha e estacava, desnorteada, transida de medo. “Mãe, mãe, mãe, onde é que estás”, choramingava. “Mãe, vá lá, assim não vale, já não quero brincar”. Até que eu, num súbito remorso, saía do esconderijo e corria a apertá-la nos braços.

Por perto, queria-me sempre por perto. Agora quer-me longe, de longe em longe, ao longe, cada vez mais ao longe e repudia-me, contradiz-me, aniquila-me.

A voz áspera dela chamou-me à realidade – Os carros estão a avançar – disse, a apontar para a estrada. – Estás a empatar o trânsito.

Engatei a primeira e deixei o carro ir abaixo – Bolas – praguejei. - Deve haver um problema qualquer com a ignição ou com o motor de arranque, isto não é normal.

- É óbvio que o problema és tu – disse ela com um sorriso maldoso, sempre a dedilhar no telemóvel. – És uma pé de chumbo.

- Não sou nada – protestei, indignada.

- És uma pé de chumbo – repetiu categórica. – Toda a gente diz isso.

- Quem é toda a gente – inquiri vexada. – As tuas amiguinhas, não?

Sem desfitar o telemóvel, ela encolheu os ombros.

Enervada, enfiei a mão na mala à procura sei lá de quê

(quiçá à procura daquela criança meiga que se abraçava a mim, me cobria de beijos lambuzados de gomas e me sussurrava ao ouvido “Adoro-te, mãe”).

De repente, a expressão sombria do seu rosto iluminou-se. – Que cena – exclamou excitada.

- O quê – perguntei surpreendida.

- Não dá para acreditar - continuou num tom estranhamente natural, quase cúmplice, quase meigo

(aquele tom de criança que perdia cada vez mais e recuperava cada vez menos).

Esperançada, pressenti uma trégua na diferença que crescia entre nós.

- O Hugo acabou com a Marisa – anunciou, a brindar-me com um sorriso

(aquele sorriso de criança que perdia cada vez mais e recuperava cada vez menos).

- E isso é bom?

- Se isso é bom – repetiu escandalizada – Não é bom, é fantástico.

- Não sei quem são – desculpei-me ressentida. - Dantes conhecia as tuas amigas e os teus amigos.

- Mas quem é que falou em amigos?

- Se não são amigos, são o quê?

- Tenho de contar isto à Tatiana - disse ela, a ignorar a minha pergunta.

- Da Tatiana gosto - afirmei. - O mesmo não posso dizer da Luísa e da outra que anda sempre colada a ela.

Ela parou de dedilhar e lançou-me um olhar sombrio.

- Eu sei que tu achas que não tenho nada a ver com isso – apressei-me a dizer. – Mas tenho, querida, sou tua mãe, é legítimo procurar saber quem são as tuas companhias.

Ela arregalou os olhos e recomeçou a escrever.

- Tens catorze anos, Inês – insisti exasperada. – Catorze, não dezoito nem vinte.

- És uma controladora – vociferou. – Não admira que o pai se tenha pirado.

- Isso não é verdade – protestei, zangada. - Estás a ser injusta e má.

E, como se a enfatizar a minha fúria, carreguei no acelerador e bati no carro da frente.

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