Até Que a Vida Nos Separe — Edições Asa, Porto, 2002
Um conjunto de contos cujo leitmotiv é a paixão. Paixões vivazes ou senescentes, ditadas por sentimentos nobres ou triviais, onde o amor e o ódio, a comédia e a tragédia, se entrecruzam num padrão complexo em que o fio condutor tanto pode ser a infidelidade como a devoção.
ANG cria personagens à altura de cada situação, numa cosmogonia de tão complexa diversidade que o título abrangente de "a condição humana" é a medida mais correcta para invocar esta obra. A sua riqueza reflecte um universo em que as figuras se expõem, se repelam e se atraem, se amam e se confrontam, despudoradamente, "apaixonadamente". Ouvimos as suas vozes, surpreendemos os seus trejeitos, captamos os seus cambiantes, indignamo-nos com as suas pequenas infâmias, regozijamo-nos com as suas esforçadas vitórias.
O jogo obviamente irónico que é proposto ao leitor a partir do título gira em torno desse hiato cheio de som e fúria que dá pelo nome de existência. Como preencher esse espaço efémero? O que nos resta para além das batalhas e dos amores, das alegrias e dos mal-entendidos, da desilusão e da excitação, das forças que unem e desatam? O que fica para lá da "espuma dos dias" de uma vida, de todas as vidas, sempre precárias, infinitamente exaltantes, grotestas, trágicas e, em última instância, solitárias? Como enfrentar o caos da desilusão, os restos da afectividade, as cicatrizes das derrotas? O que fazer do Tempo, até que a vida nos separe?
Helena Vasconcelos